O coletivo Derrubando Muros protocolou uma representação formal junto ao Ministério Público Federal (MPF) solicitando a abertura de uma investigação sobre o processo que concedeu o direito de ocupação de um imóvel de luxo da União ao senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL).
A propriedade, situada na região costeira do Rio de Janeiro, era anteriormente ocupada pela família e por sócios do jogador de futebol Richarlison, atualmente no Tottenham, da Inglaterra.
Patrimônio público e suspeita de interferência
A denúncia apresentada ao MPF sustenta que o caso ultrapassa os limites de um litígio entre particulares, uma vez que a área envolvida pertence originariamente ao acervo patrimonial do governo federal.
“Não é uma mera disputa entre entes privados. Trata-se de patrimônio da União. É de todos os brasileiros”, afirmou José Cesar Martins, coordenador do coletivo Derrubando Muros.
De acordo com o documento, existem indícios da prática de advocacia administrativa, crime caracterizado pelo uso de prestígio ou facilidades junto a órgãos públicos para obter vantagens ou interesses privados.
Entenda a disputa pelo imóvel costeiro
O terreno em questão é de propriedade estrita da União. O que havia sido adquirido por Richarlison e seus parceiros comerciais era o direito de posse e ocupação da área. Para a consolidação do espaço, o atleta relatou ter realizado um investimento de aproximadamente R$ 10 milhões.
Segundo as declarações públicas do jogador, após a compra dos direitos sobre a propriedade, surgiram partes interessadas em adquirir o local, incluindo o parlamentar do PL.
“Como eu não quis vender, os caras pegaram na mão grande lá na Justiça”, declarou o jogador de futebol em publicação nas redes sociais.
A representação do coletivo destaca que não pretende intervir em favor de nenhuma das partes privadas envolvidas, mas garantir a lisura na tramitação de processos administrativos que envolvem bens públicos.
Tramitação acelerada na SPU
A posse mantida por Richarlison aguardava uma deliberação oficial da Secretaria do Patrimônio da União (SPU). Durante esse período de espera, o atleta informou ter sido abordado pelo advogado Willer Tomaz, apontado como amigo próximo de Flávio Bolsonaro.
Após a recusa do jogador em vender o direito de ocupação, Willer e Flávio teriam ingressado com um pedido direto de regularização do terreno junto à SPU em nome do senador.
“O pedido foi aceito em tempo recorde, Richarlison perdeu o imóvel e a ilha passou a pertencer a Flávio Bolsonaro”, complementou o coordenador do Derrubando Muros.
Registros da Justiça do Rio de Janeiro mostram que uma sentença proferida em outubro de 2025 extinguiu o processo sem julgamento do mérito, após a renúncia de uma das partes. Em janeiro de 2026, com o trânsito em julgado, os autos foram arquivados.
Histórico do conflito e desdobramentos
A disputa envolvendo o casarão — equipado com estrutura de luxo, cachoeira particular e localizado próximo ao aeroporto da região costeira fluminense — arrasta-se desde o ano de 2020.
Em 2022, o atleta e seus sócios foram surpreendidos por um mandado de reintegração de posse movido pela empresa M Locadora, representada por um advogado associado ao escritório de Willer Tomaz.
Em manifestações anteriores, a assessoria de Flávio Bolsonaro negou qualquer atuação irregular no processo, declarando que o senador mantém apenas relação de amizade com o advogado.
Por sua vez, Willer Tomaz afirmou ter adquirido legalmente os direitos sobre a área e ressaltou que desembolsou R$ 5 milhões para sanar pendências fiscais do imóvel, classificando os antigos ocupantes como invasores.
Investigações paralelas conduzidas pela Polícia Federal (PF) apontam ainda que o advogado Willer Tomaz é investigado por supostas fraudes contra a Previdência Social e por acesso privilegiado a minutas de decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e pareceres do MPF antes da publicação oficial.





