O cenário político da América do Sul sofreu um forte abalo nesta quinta-feira (5). O presidente do Paraguai, Santiago Peña, apresentou oficialmente sua renúncia ao cargo máximo do Poder Executivo em meio a uma escalada de instabilidade institucional desencadeada pelo colapso do Ueno Bank e pela iminência de abertura de um processo de impeachment no parlamento.
A decisão drástica ocorreu após o chefe de Estado perder a sustentação política de sua própria base no Congresso Nacional, incluindo lideranças influentes de seu partido. A efetivação da saída depende da deliberação formal do Congresso paraguaio, órgão incumbido de aprovar ou rejeitar a carta de renúncia.
Assim que a vacância for oficialmente homologada pelo Poder Legislativo, o vice-presidente Pedro Alliana deve assumir o comando do Palácio dos López para dar sequência à gestão e concluir o mandato presidencial, com término previsto para 15 de agosto de 2028.
Perda de apoio partidário e avanço do impeachment
Santiago Peña assumiu a presidência do país vizinho em agosto de 2023. Sua renúncia ocorre após pouco mais de três anos de mandato e no momento exato em que a Câmara dos Deputados paraguaia debatia a minuta de acusação para submetê-lo a um julgamento político.
A derrocada final do apoio governista acelerou-se quando o ex-presidente do país e atual líder do Partido Colorado, Horacio Cartes, anunciou publicamente seu alinhamento em favor do impeachment. Na sequência, a bancada de sustentação da legenda no parlamento seguiu a determinação partidária, isolando o presidente.
O pedido formal de julgamento político deu entrada no parlamento chancelado por 35 assinaturas de deputados. As acusações centram-se em suspeitas de conflito de interesses, severas falhas na fiscalização governamental sobre a gestão do Ueno Bank e o direcionamento atípico de recursos previdenciários para a instituição financeira privada.
A derrocada do Ueno Bank e os impactos na população
O estopim para a ruína do governo Peña teve início no dia 2 de novembro, quando o Banco Central do Paraguai determinou a abertura do procedimento de resolução do Ueno Bank. A medida drástica foi anunciada publicamente no dia seguinte, após auditorias e ajustes nos demonstrativos contábeis revelarem um cenário catastrófico.
Os relatórios oficiais do Banco Central atestaram que o índice de solvência da instituição bancária caiu para menos da metade do patamar mínimo exigido pela regulamentação financeira do país.
O colapso da instituição paralisou as finanças nacionais. O banco detinha uma carteira de aproximadamente 2,9 milhões de clientes, correspondente a cerca de metade da população do país. Com a intervenção, aplicativos, serviços de cartão e o atendimento nas agências físicas foram imediatamente bloqueados.
A paralisia deixou milhões de correntistas sem acesso a remunerações diárias, proventos e economias pessoais, desencadeando manifestações violentas e protestos de rua em Assunção. O banco também concentrava expressivos volumes de recursos de órgãos públicos federais e fundos do sistema previdenciário.
Ligações societárias e declarações do presidente
As investigações políticas atingiram diretamente a figura do presidente em razão de seus vínculos passados com o conglomerado financeiro. Santiago Peña figurou como investidor da Ueno Holding. Em abril de 2025, o mandatário chegou a declarar publicamente que havia alienado suas ações no encerramento de março daquele ano, desfazendo sua participação societária.
Antes de encaminhar o pedido de renúncia ao parlamento, Peña tentou conter a crise ao solicitar o afastamento do então presidente do Banco Central, Carlos Carvallo. O presidente também defendeu a liberação de recursos do Fundo de Garantia de Depósitos para ressarcir os correntistas atingidos.
“Os responsáveis por quaisquer irregularidades apuradas na condução do banco devem responder perante a Justiça sem qualquer tipo de privilégio”, defendeu o ex-mandatário antes de deixar o cargo.
A saída de Peña aprofunda a incerteza política no país vizinho, que aguarda a posição oficial do Congresso para validar a transição de poder no Executivo.





