A jurista sul-africana Navanethem “Navi” Pillay foi anunciada nesta sexta-feira (9) como vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2026. A escolha foi divulgada pelo Comitê Norueguês do Nobel, que reconheceu sua trajetória na promoção da paz, da justiça e do direito internacional.
Aos 85 anos, Pillay receberá uma medalha de ouro e 12 milhões de coroas suecas, valor equivalente a aproximadamente R$ 6,2 milhões. Segundo o comitê, a jurista contribuiu para fortalecer o uso de tribunais e dos instrumentos jurídicos internacionais na resolução de conflitos.
Em comunicado, a organização afirmou que o trabalho de Pillay ajuda a dar sustentação à paz por meio da responsabilização jurídica e da defesa de princípios universais.
“A paz exige justiça”, afirmou o Comitê Norueguês do Nobel ao justificar a escolha.
Trajetória começou durante o apartheid
Nascida em Durban, na África do Sul, em uma família de origem tâmil indiana, Pillay iniciou sua carreira jurídica durante o apartheid, regime de segregação racial que restringiu direitos políticos e civis da população negra e de outros grupos não brancos em benefício da minoria branca.
Ao longo desse período, ela atuou na defesa de pessoas que se opunham ao regime, entre elas Nelson Mandela. Pillay ajudou a garantir que o líder sul-africano tivesse acesso a um advogado enquanto estava preso.
Sua trajetória abriu caminho para uma série de posições de destaque no Judiciário. Ela atuou como juíza no Tribunal Superior da África do Sul e se tornou a primeira mulher não branca a integrar a Suprema Corte do país.
Atuação em tribunais internacionais
A carreira de Pillay ganhou dimensão internacional a partir da década de 1990. Ela atuou como juíza no Tribunal Penal Internacional para Ruanda, criado para julgar os responsáveis pelo genocídio de 1994, e também no Tribunal Penal Internacional, instituição responsável por julgar crimes como genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra.
No tribunal que julgou os crimes cometidos em Ruanda, a jurista teve participação relevante em decisões que ajudaram a estabelecer precedentes no direito internacional.
Entre eles está o reconhecimento de que o estupro e outras formas de violência sexual podem constituir crimes contra a humanidade ou atos de genocídio, dependendo das circunstâncias. A atuação de Pillay também foi significativa em um processo que envolveu acusações de incitação ao genocídio por meio da divulgação de propaganda.
Essas decisões contribuíram para ampliar o entendimento jurídico sobre a responsabilidade de indivíduos por crimes cometidos em contextos de violência em massa.
Liderança na área de direitos humanos da ONU
Entre 2008 e 2014, Pillay ocupou o cargo de Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Na função, tornou-se uma das principais representantes da organização no acompanhamento de violações de direitos fundamentais em diferentes países.
Mais recentemente, presidiu a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU sobre o Território Palestino Ocupado, Jerusalém Oriental e Israel. O órgão concluiu que Israel cometeu genocídio na Faixa de Gaza durante a guerra contra o Hamas, segundo a investigação mencionada na reportagem.
Atualmente, Pillay também atua como juíza no processo da Corte Internacional de Justiça que trata da acusação de genocídio contra Mianmar, relacionada à situação da minoria rohingya.
Ao longo da carreira, ela defendeu a responsabilização de autoridades e de outros indivíduos por violações do direito internacional, além de reforçar a obrigação de Estados e pessoas de respeitar o Estado de Direito.
Comitê vê premiação como defesa da justiça internacional
Ao anunciar a vencedora, o Comitê Norueguês do Nobel destacou a importância de preservar as instituições internacionais e o uso do direito para prevenir conflitos e promover a paz.
“Navi Pillay é uma das grandes defensoras dos princípios jurídicos internacionais em nosso tempo”, declarou o comitê.
A organização também afirmou que o prêmio pretende lembrar à comunidade internacional que o respeito às leis nacionais e internacionais é fundamental para a resolução não violenta de disputas.
Neste ano, foram indicados 287 candidatos ao Nobel da Paz, sendo 208 pessoas e 79 organizações. Os nomes dos indicados permanecem em sigilo por 50 anos, conforme as regras do prêmio.
O Comitê Norueguês do Nobel é formado por cinco integrantes nomeados pelo Parlamento da Noruega. A instituição é responsável por escolher o vencedor da categoria da Paz.
O que é o Prêmio Nobel?
O Prêmio Nobel reconhece pessoas e organizações por contribuições consideradas relevantes para a humanidade. A premiação foi estabelecida a partir do testamento de Alfred Nobel, inventor, empresário e cientista sueco que destinou grande parte de sua fortuna à criação de prêmios em diferentes áreas.
A Fundação Nobel foi criada em 1900, e a primeira edição da premiação ocorreu em 1901. As categorias tradicionais incluem Física, Química, Fisiologia ou Medicina, Literatura e Paz.
Entre os laureados estão Albert Einstein, premiado em 1921 por suas contribuições à Física; Martin Luther King Jr., vencedor do Nobel da Paz em 1964 por sua atuação pelos direitos civis; e Malala Yousafzai, reconhecida em 2014 por sua luta pelo direito à educação de crianças e jovens.
Os anúncios dos vencedores do Nobel de 2026 seguem até segunda-feira (12), quando será divulgado o nome do ganhador da categoria de Economia. Os vencedores de Medicina, Física, Química, Literatura e Paz já foram anunciados.





