A Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) descartaram a proposta de colaboração premiada do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O empresário alegou ter negociado com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto o pagamento de propina para garantir o acesso do Banco Master a recursos de fundos de pensão de estatais federais.
As revelações, divulgadas em reportagem da revista Veja, indicam que Vorcaro teria relatado o repasse de R$ 30 milhões em espécie ao Instituto Lula, gerido por Paulo Okamotto. O montante, segundo o ex-banqueiro, seria destinado a financiar a produção no exterior de um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dirigido por Oliver Stone.
Contudo, integrantes da PF e da PGR confirmaram que o acordo foi recusado. A avaliação técnica das instituições apontou que a defesa do empresário não apresentou elementos probatórios mínimos que dessem sustentação e credibilidade às acusações apresentadas no anexo entregue aos investigadores.
“A PF e a PGR recusaram a delação por ausência de elementos mínimos que dessem credibilidade às declarações apresentadas.”
Detalhes das alegações e supostos acordos
Nos documentos apresentados na tentativa de delação, Vorcaro sustentou que a aproximação com o Partido dos Trabalhadores ocorreu por intermédio do ex-CEO do Master, Augusto Lima, com intermediação do senador Jaques Wagner (PT-BA). O objetivo seria credenciar a instituição financeira junto a fundos como Previ, Caixa Asset e Banco do Brasil.
Além do repasse milionário em dinheiro vivo para o documentário e para a fundos do Instituto Lula, o ex-banqueiro afirmou que Vaccari teria exigido uma comissão de 10% sobre todos os valores captados junto às entidades de previdência complementar de estatais como Petrobras, Correios, Caixa e Banco do Brasil.
A estimativa apresentada pela reportagem calculava uma projeção de captação de até R$ 9 bilhões pelo banco, o que geraria cerca de R$ 1 bilhão em propinas direcionadas ao partido.
Mensagens, áudios e questionamentos da PGR
A defesa do ex-banqueiro alegou possuir registros de conversas, identidades de operadores responsáveis pelas entregas das quantias e a indicação dos locais utilizados nos repasses. Entre o material entregue, consta um áudio no qual o empresário menciona que o aporte para o filme de Lula teria ocorrido de forma irregular.
Entretanto, fontes da Procuradoria-Geral da República ouvidas reservadamente ressaltaram que o referido arquivo de áudio jamais deu entrada oficialmente nas tratativas de negociação conduzidas pela equipe técnica. A suspeita dos investigadores é de que a gravação tenha sido produzida após o descarte formal da delação.
Os técnicos da PGR também apontaram inconsistências na linguagem do material apresentado. Os relatórios entregues pelos advogados adotavam narrativas genéricas em terceira pessoa, utilizando termos informais que não correspondiam ao padrão usual adotado em negociações formais de colaboração premiada.
“As propostas foram recebidas na forma como livremente elaboradas pela defesa, sem juízo nem recusas prévias, e não houve depoimento oral justamente pela rejeição da proposta.”
Menção a ministros e reuniões em Brasília
A narrativa do ex-banqueiro envolveu ainda citações ao ex-ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, ao seu ex-secretário-executivo Olavo Noleto e a um interlocutor identificado como “Júlio”. Trocas de mensagens de texto entre abril de 2024 e junho de 2025 indicavam tentativas de agendar reuniões com a cúpula dos fundos de pensão Postalis, Previ e Petros.
Em 29 de abril de 2024, o Banco Master passou a figurar na “lista exaustiva” do governo federal — documento que habilita instituições financeiras a receberem aportes das entidades de previdência estatal. No mesmo dia, diálogos mostram a cobrança de um suposto repasse de R$ 500 mil a um dos operadores.
Apesar das articulações e das insistentes cobranças demonstradas nas mensagens, as operações financeiras não avançaram. Em junho de 2025, novas conversas indicaram que o banco não obteve êxito na captação dos recursos pretendidos, resultando no encerramento das tratativas entre as partes.
Manifestações oficiais
Em nota pública, a PGR esclareceu que a negociação foi mediada exclusivamente pelos advogados de Vorcaro, sem qualquer interlocução direta do investigado com os procuradores da república, reiterando que nenhum depoimento presencial foi colhido devido à rejeição da proposta.
A campanha do presidente Lula classificou as declarações do ex-banqueiro como acusações destituídas de comprovação, criadas com o objetivo de gerar tumulto no cenário político. A assessoria reforçou que o presidente jamais solicitou ou autorizou o recebimento de vantagens indevidas e informou que adotará as medidas judiciais cabíveis contra as alegações.
Alexandre Padilha e Olavo Noleto também negaram qualquer irregularidade ou envolvimento nas negociações citadas. As defesas dos demais citados no levantamento foram procuradas para manifestação sobre o caso.





