O Partido dos Trabalhadores (PT) protocolou uma representação formal perante a Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) solicitando a abertura de investigações sobre a conduta de agentes do 10º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPM/I) e do 10º Batalhão de Ações Especiais (Baep) em Piracicaba, no interior de São Paulo. A legenda acusa a corporação e o senador eleito Guilherme Derrite (PP) de orquestrarem uma suposta “manipulação política” e “abuso de autoridade” após a prisão de três jovens em uma ocorrência de tráfico de drogas.
O episódio ocorreu na comunidade Vitória Pantanal na última quarta-feira (21). A controvérsia ganhou dimensão nacional depois que vídeos e fotos veiculados nas redes mostraram os suspeitos trajando camisetas com estampas em apoio ao candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva. A legenda petista argumenta que o cenário foi intencionalmente forjado para produzir material difamatório e impactar a corrida presidencial na reta final do segundo turno.
Alegações de fraude e pedido de apuração à Polícia Federal
Na petição encaminhada à PGE, a cúpula do PT defende a imediata requisição de um inquérito pela Polícia Federal (PF) para apurar crimes de fraude eleitoral, produção de desinformação (fake news) e eventuais agressões físicas praticadas contra um adolescente de 17 anos envolvido na abordagem.
A peça jurídica exige que os órgãos de controle colham o depoimento presencial dos policiais militares que participaram da ação, dos jovens detidos, de seus familiares e do próprio senador eleito Guilherme Derrite. O parlamentar publicou os registros da operação em suas redes pessoais acompanhados de críticas e cobranças pela aprovação da redução da maioridade penal no Congresso Nacional.
“Para esclarecer o escândalo, a denúncia exige que as autoridades ouçam a mãe das vítimas, os policiais militares que forjaram a gravação e o senador Guilherme Derrite, que terá que explicar de quem recebeu o material fraudulento e se tinha conhecimento da armação quando decidiu publicá-lo na internet”, diz o texto oficial do PT.
Versão da família contradiz boletim policial
A denúncia do partido ganhou respaldo público após as declarações da dona de casa Edna Souza Barbosa, de 33 anos, mãe do menor de idade apreendido na ação. Em entrevista, Edna afirmou categoricamente que seu filho não estava trajando qualquer vestimenta referente a campanhas políticas ou ao presidente da República no instante em que foi abordado pelos policiais.
A mãe relatou que o adolescente vestia uma camiseta regata na cor azul. Segundo ela, as peças estampadas distribuídas pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) teriam sido colocadas deliberadamente nos suspeitos pelos próprios agentes de segurança para gerar comoção nas redes digitais.
“Meu filho estava com uma blusa azul regata, não estava com blusa de Lula. Tudo molecada, na vida errada, então não estão nem aí pra eleição. Colocaram a camisa para ter ibope, para ter engajamento. Não sei qual foi a intenção deles”, desabafou Edna Souza Barbosa.
A mãe do adolescente acrescentou ainda que seu filho e uma filha de 14 anos foram agredidos fisicamente pela guarnição durante a contenção. Ela reconheceu que o filho cometia ato infracional ao fazer uso de entorpecentes no local, mas repudiou os excessos cometidos na abordagem.
Origem das camisetas e denúncias de intimidação
As vestimentas utilizadas na polêmica eram peças promocionais confeccionadas pela Apeoesp. Na mesma manhã de quarta-feira, a entidade sindical havia participado de um ato de apoio político promovido pelo movimento estudantil do campus da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), reunindo professores, pesquisadores e alunos em Piracicaba.
Além do caso envolvendo o trio de jovens, moradores da comunidade Vitória Pantanal relataram episódios paralelos de truculência policial motivados por vestuário político. Duas moradoras declararam ter sido abordadas de forma ostensiva por um policial militar enquanto se deslocavam para o trabalho portando a mesma camisa do sindicato.
Conforme o relato de uma das vítimas, o agente exigiu a exibição dos documentos e questionou com tom irônico se o vestuário pertencia a um “partido vagabundo”, ordenando que a peça fosse entregue. A deputada estadual Professora Bebel (PT), presidente da Apeoesp, anunciou que formalizará a denúncia na Ouvidoria da Polícia Militar e na Corregedoria para exigir perícias técnicas e punição aos envolvidos.
Posicionamento das autoridades e da Secretaria de Segurança
De acordo com o boletim de ocorrência lavrado no 2º Distrito Policial de Piracicaba, a equipe da Polícia Militar se deslocou até a Rua Senador Saraiva após receber denúncia anônima sobre três indivíduos vendendo drogas próximo a um estabelecimento comercial.
Em nota oficial, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) detalhou o balanço do material recolhido na incursão:
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23 porções de cocaína encontradas em posse do adolescente;
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137 porções de cocaína e um revólver apreendidos com os dois adultos de 21 e 24 anos;
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R$ 340 em espécie recolhidos no perímetro da abordagem;
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160 porções no total contabilizadas e encaminhadas para a perícia técnico-científica.
A SSP-SP declarou que não compactua com eventuais desvios de conduta de seus servidores e destacou que até o momento não identificou registros oficiais sobre as denúncias de intimidação na comunidade. A pasta, no entanto, não respondeu aos questionamentos sobre a acusação de que a vestimenta dos suspeitos teria sido colocada de forma forjada pela guarnição.
Por sua vez, a assessoria do senador eleito Guilherme Derrite informou que a publicação nas redes sociais teve como único objetivo alertar a sociedade sobre o aliciamento de menores pelo crime organizado, destacando que o texto veiculado não fazia citação direta às estampas das camisetas.





