Um dos maiores mistérios arquivísticos da Igreja Católica começou a ser desvendado com o auxílio da tecnologia. Um manuscrito de 408 páginas, preservado há mais de quatro séculos na Biblioteca do Vaticano, teve trechos finalmente traduzidos com o suporte de ferramentas de inteligência artificial especializadas em documentos antigos.
O volume, conhecido entre historiadores como Cifra Borg, permaneceu indecifrável por mais de 400 anos devido à sua estrutura extremamente complexa. O texto combina símbolos desconhecidos, caracteres arbitrários e múltiplos sistemas de criptografia sobrepostos.
Proteção contra acusações de bruxaria
Até o início do projeto tecnológico, a única pista sobre a utilidade do livro estava em uma breve anotação na contracapa. O registro indicava que o conteúdo tratava de terapias e remédios para enfermidades do corpo humano.
A opção por codificar conhecimentos médicos era uma prática comum no século XVII. O uso de criptografia servia para proteger fórmulas farmacêuticas e impedir que tratamentos baseados em ervas fossem associados a práticas ilícitas ou acusações de bruxaria pela Inquisição.
“A combinação entre ferramentas de inteligência artificial e análise humana permite acelerar etapas que poderiam consumir anos de trabalho manual na transcrição de caracteres incomuns”, destacou a professora Michelle Waldispühl, da Universidade de Oslo.
Fórmulas medicinais e complexidade de códigos
A decifração inicial das páginas revelou métodos de tratamento e receitas medicinais da época. Entre os achados, pesquisadores identificaram fórmulas preparadas para o combate à disenteria, que recomendavam o uso de vinho tinto e noz-moscada submetida a processos de fermentação.
A análise técnica mostrou que o autor do manuscrito utilizou dezenas de sistemas de cifragem distintos ao longo das páginas. Para dificultar a leitura por terceiros, um mesmo caractere podia representar letras diferentes, enquanto vários símbolos foram inseridos ao longo do texto apenas para confundir eventuais leitores.
O papel da tecnologia Transkribus
A virada na investigação ocorreu com a aplicação do Transkribus, uma plataforma de inteligência artificial voltada para o reconhecimento de manuscritos históricos. O sistema converteu as imagens das páginas danificadas e com tinta desbotada em blocos de texto digitais para análise linguística.
A linguista computacional Beáta Megyesi, da Universidade de Estocolmo, comparou o trabalho a uma investigação criminal em que cada padrão identificado ajuda a reconstruir a história. A mesma tecnologia já havia sido aplicada com sucesso para decifrar uma carta diplomática da Guerra dos Trinta Anos, escrita em 1637.
Especialistas ressaltam que, embora a IA consiga cruzar dados e reconhecer padrões em velocidade sem precedentes, a validação histórica do texto ainda depende inteiramente do trabalho de pesquisadores. A expectativa é que o modelo seja utilizado para analisar milhares de outros documentos codificados que permanecem sem leitura nos arquivos europeus.





