A médica e técnica de enfermagem Ana Paula Nunes dos Santos, de 27 anos, viveu dias de pesadelo após ser detida por engano no Aeroporto Internacional de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul. A jovem foi confundida com uma mulher homônima investigada por envolvimento com facção criminosa.
O episódio começou no dia 4 de agosto, quando Ana Paula desembarcou de uma viagem de férias vinda da Bahia ao lado do marido e da filha do casal, de apenas 6 meses de vida. Abordada por agentes da Polícia Federal ainda na área de desembarque, a profissional foi informada sobre um mandado de prisão em seu nome.
Mesmo alertando desde o primeiro momento sobre a divergência nos dados do documento judicial, a médica não teve os argumentos checados na ocasião. O mandado apresentava o mesmo número de CPF e RG, porém continha informações divergentes relativas ao sexo e ao local de nascimento da verdadeira suspeita.
“Eu insisti que era a pessoa errada. Entrei em desespero, porque no mandado constavam meu CPF e meu RG, mas o local de nascimento e o sexo estavam errados. Eu falava que não era eu, mas não fui ouvida”, relatou Ana Paula.
Separação do bebê e maus-tratos em delegacia
Após a abordagem policial, a jovem foi conduzida a uma unidade da Polícia Civil. A transferência resultou na separação imediata de sua bebê de 6 meses. Sem condições de custear hospedagem de emergência, o marido da médica passou a noite dentro do carro com a criança em frente à delegacia.
Ana Paula afirma que teve pedidos para amamentar a filha negados e que sofreu hostilizações verbais por parte dos agentes de plantão. Durante o período em que esteve detida, a profissional também relata ter ficado sem acesso a itens básicos de higiene pessoal e água potável enquanto estava menstruada.
“Me conduziram até a viatura, me separando da minha bebê e do meu esposo. Eu pedi muito pela minha bebê, mas não fui ouvida. Meu esposo dormiu no carro com ela. Não permitiram que eu amamentasse”, afirmou.
Agravação no fórum e audiência de custódia
Após passar duas noites em uma cela, a médica foi transportada ao Fórum de Campo Grande em uma viatura de transporte de presos, dividindo espaço com outras sete detentas. No local, passou por procedimentos de revista íntima com exigência de desnudamento e agachamentos.
Na audiência de custódia, a Justiça concedeu a liberdade provisória, mas impôs o uso imediato de tornozeleira eletrônica. A decisão determinou ainda que a investigada procurasse a Defensoria Pública para dar segmento ao processo.
A moradora de Dourados enfrentou 28 dias sob monitoramento eletrônico por falha na checagem de dados criminais.
Erro identificado em dez minutos na Defensoria
A correção do equívoco ocorreu apenas quando a jovem retornou à cidade onde reside, em Dourados, e apresentou o caso ao defensor público Rodolfo Arthur. A conferência simples do processo levou menos de dez minutos para constatar a falha de identificação.
A verificação apontou que os dados pessoais de Ana Paula haviam sido vinculados indevidamente a um processo do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) direcionado a outra pessoa com o mesmo nome.
O vínculo indevido do processo ao registro civil travou o processo de revalidação do diploma de medicina da profissional no Brasil.
A Defensoria Pública ingressou com pedido de urgência na Justiça, resultando na retirada do equipamento de monitoramento na segunda-feira (31). A defesa atua agora para obter a desvinculação definitiva do nome e do CPF de Ana Paula da ação penal.
“Na Defensoria, eles abriram o processo e verificaram que realmente não era eu. Foi um alívio enorme. Ao todo, eu paguei pelo crime de outra pessoa por 28 dias”, concluiu a médica.





