A agência reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos (FDA) aprovou o registro comercial do apitegromabe, o primeiro tratamento farmacológico focado diretamente no combate à degradação da massa muscular. Comercializada sob o nome Isembyld pela farmacêutica Scholar Rock, a medicação é um anticorpo monoclonal desenvolvido para bloquear a ação da miostatina, proteína responsável por limitar e degradar o tecido muscular.
A aprovação marca um avanço histórico no tratamento da Atrofia Muscular Espinhal (AME) e consolida uma nova fronteira na medicina metabólica. A substância surge como uma alternativa promissora para ser associada a tratamentos de obesidade, evitando que pacientes em uso de canetas emagrecedoras percam musculatura ao longo do processo de redução de peso.
Mecanismo de ação sobre a miostatina
A miostatina atua no organismo como um regulador natural que impede o crescimento excessivo dos músculos. Essa proteína atua reduzindo a síntese de novas cadeias proteicas, acelerando a quebra da estrutura muscular existente e inibindo a multiplicação de células-tronco focadas na regeneração tecidual.
“A aprovação do primeiro inibidor da miostatina abre caminho para uma nova abordagem da obesidade, em que o objetivo deixa de ser apenas o número na balança e passa a ser a composição do corpo: perder gordura e preservar músculo”, afirma o endocrinologista Ramon Marcelino, doutor pela Faculdade de Medicina da USP e membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês.
O apitegromabe age ligando-se à molécula inativa da miostatina antes que ela seja sintetizada pelo organismo. Ao impedir essa ativação, o fármaco neutraliza a degradação e permite a preservação do tecido muscular.
Impacto no tratamento da Atrofia Muscular Espinhal
A AME é uma condição genética rara que afeta 1 a cada 10 mil nascidos vivos, caracterizada por uma mutação no gene SMN1, responsável pela manutenção dos neurônios motores. Sem o estímulo dessas células nervosas, a musculatura do paciente sofre um processo severo de atrofia e perda de mobilidade.
Diferente das terapias já existentes, que atuam na correção da proteína SMN2 para manter os neurônios vivos, o novo medicamento age diretamente no tecido muscular. O uso foi autorizado para adultos e crianças a partir de 2 anos que já estejam em tratamento para AME.
A eficácia do fármaco foi demonstrada em um ensaio clínico de 52 semanas, duplo-cego e controlado por placebo, englobando 188 participantes entre 2 e 21 anos incapazes de caminhar de forma independente. A avaliação principal foi focada no grupo de 2 a 12 anos.
Os dados clínicos apontaram que os pacientes tratados com a dose de 10 mg/kg apresentaram evolução significativa da função motora, enquanto o grupo placebo registrou perda progressiva de força. Os indivíduos submetidos ao Isembyld apresentaram uma chance duas vezes maior de obter ganhos motores clinicamente relevantes.
Durante o estudo, as reações adversas mais frequentes foram febre, infecções do trato respiratório superior, vômitos, tosse, dores de cabeça e gastroenterite. Os médicos identificaram ainda um aumento no risco de fraturas ósseas, além de alertas sobre potenciais danos fetais e impactos na função reprodutiva.
Testes clínicos na preservação de massa magra na obesidade
O potencial do apitegromabe na manutenção muscular atraiu a atenção da comunidade científica para o tratamento da obesidade. Em um estudo de fase 2 divulgado na revista Nature Medicine, 102 adultos com sobrepeso foram divididos para testar a combinação da substância com a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro.
Um dos grupos recebeu apenas o tratamento tradicional para perda de peso, enquanto o segundo recebeu infusões intravenosas de apitegromabe a cada quatro semanas associadas ao emagrecedor. Ao final do acompanhamento de 24 semanas, a perda total de peso corporal foi equivalente entre os dois perfis de participantes.
No entanto, a composição da massa perdida mostrou uma diferença expressiva: no grupo tratado com o inibidor de miostatina, a massa magra representou apenas 14,6% do peso perdido, contra 30,2% no grupo que recebeu placebo. A retenção muscular entre os pacientes que usaram a nova medicação foi 54,9% superior.
Custos, uso “off-label” e próximas etapas
Apesar dos resultados promissores na fase 2, a indicação do apitegromabe para o tratamento da obesidade ainda depende da realização de ensaios clínicos de fase 3 e de avaliações por agências como a Anvisa. A farmacêutica busca parceiros comerciais para financiar a última etapa de testes.
O uso “off-label” (fora da bula) da medicação aprovada para AME pode ser limitado pelo alto valor de mercado. Estimativas da indústria indicam que o tratamento anual de um paciente típico pode chegar a US$ 310 mil (cerca de R$ 1,7 milhão na conversão direta).
Especialistas ressaltam a importância de aguardar os laudos conclusivos de segurança antes de adotar a medicação para fins de emagrecimento. Outras moléculas com mecanismo similar, como o bimagrumabe, também passam por testes combinados à semaglutida (Ozempic e Wegovy), indicando uma transformação nos protocolos globais de tratamento da obesidade.





