Um engenheiro civil que realizou vistoria na obra do prédio que desabou na Penha, na zona leste de São Paulo, já havia identificado falhas graves na estrutura do imóvel e recomendado a evacuação imediata das famílias vizinhas. O alerta consta em depoimento prestado pelo profissional à Controladoria Geral do Município (CGM).
A tragédia, registrada no último dia 12 de setembro, resultou na morte de seis pessoas. O especialista foi contratado pela construtora New Home, responsável pelo empreendimento, para inspecionar o local na Rua Tequici em fevereiro deste ano.
Durante a avaliação, o profissional constatou inconsistências graves em relação à licença original. O alvará aprovado previa a construção de 39 unidades habitacionais, mas o projeto executado já planejava cerca de 50 apartamentos.
A inspeção técnica também revelou problemas de segurança contra incêndios, como o estreitamento de escadas fora das normas do Corpo de Bombeiros, além da ausência de reservatório de combate a incêndio e de caixa d’água prevista no projeto.
“A construção puxava uma das casas e empurrava a outra”, relatou o engenheiro ao detalhar as rachaduras visíveis nos muros, sarjetas e calçadas vizinhas antes do colapso.
Diante do risco iminente de colapso, o engenheiro orientou a remoção urgente dos moradores da residência ao lado. Ele também solicitou um estudo do uso do solo para calcular os reforços necessários, mas a construtora declarou não possuir o documento.
A New Home afirmou ter R$ 670 mil para adequar o prédio, valor considerado inviável pelo especialista. O orçamento real para corrigir os problemas estruturais alcançava R$ 5 milhões. Após a apresentação dos custos e alertas, a construtora não deu prosseguimento à contratação da empresa do engenheiro.
Cronologia da tragédia na Penha
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2019: A Prefeitura de São Paulo autuou e interditou a obra por falta de alvará de construção.
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2021: Diante da continuidade irregular dos trabalhos, a Procuradoria-Geral do Município ingressou na Justiça para parar a obra.
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Fevereiro de 2026: Engenheiro vistoriou o local, apontou risco de desabamento e orçou as correções em R$ 5 milhões.
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12 de setembro de 2026: A estrutura de seis andares ruiu sobre uma casa habitada por oito pessoas da mesma família.
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Resultado: Seis pessoas morreram no local, incluindo uma mulher grávida e uma criança. Duas vítimas — um homem e uma menina de 5 anos — foram resgatadas com vida.
Investigação e indiciamento de envolvidos
A Polícia Civil de São Paulo trabalha com a hipótese de indiciar quatro pessoas por homicídio com dolo eventual. Entre os alvos estão os sócios da construtora New Home. Ronaldo Vivacqua, apontado como sócio oculto, foi preso temporariamente.
Seu filho, Cristiano Vivacqua, responsável técnico pela obra, e Ísis Brandão, proprietária formal da empresa, são considerados foragidos pela Justiça.
A quarta investigada é a servidora pública Viviane Rodrigues de Palma, coordenadora de Planejamento e Desenvolvimento Urbano da Subprefeitura da Penha. Ela assinou o documento declarando que a estrutura antiga do terreno havia sido demolida em 2024 para a concessão de novo alvará.
Segundo a delegada Deidiene Fialho, a construção original mal estruturada não foi demolida. Os responsáveis continuaram erguendo o prédio de seis andares em cima dos alicerces condenados.
“A servidora esteve no local e, mesmo vendo uma obra com seis ou sete andares erguida em cima da base condenada, atestou que a edificação anterior havia sido demolida”, afirmou a delegada Deidiene Fialho.
A funcionária pública foi afastada das funções por 120 dias e também responde a procedimentos administrativos para apurar movimentações financeiras. Em nota, a defesa da servidora afirmou que os procedimentos financeiros são antigos e não têm relação com o relatório emitido na obra em 2024. A reportagem não conseguiu contato com os demais citados.





