Diálogos obtidos pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero escancaram um alto grau de intimidade e proximidade entre o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente preso do Complexo Penitenciário da Papuda.
As mensagens, extraídas após a apreensão do telefone celular de Vorcaro e divulgadas em reportagem pelo jornal Folha de S.Paulo, revelam trocas frequentes de elogios, recordações de viagens ao exterior, convites para encontros reservados e pedidos diretos de favores pessoais.

Entre as interações registradas ao longo do ano de 2025, o ex-dono do Banco Master demonstrou o desejo de repetir viagens internacionais ao lado do parlamentar.
Em uma das mensagens, enviada no dia 23 de maio do ano passado, o empresário lamentou ter cumprido rotina de compromissos no eixo São Paulo-Belo Horizonte enquanto desejava estar em destino europeu com o deputado.
“São Paulo hoje! E final de semana em Belo Horizonte. Mas queria estar mesmo era em Mônaco com você. Rsrs.” — Daniel Vorcaro em mensagem enviada ao deputado Hugo Motta
Pedidos de camarote e compartilhamento de bastidores
O acervo de conversas em poder dos investigadores da PF também registra momentos em que o presidente da Câmara recorreu ao ex-banqueiro para obter vantagens em eventos sociais. Em 3 de março de 2025, dias antes das desfiles das campeãs do Carnaval no Rio de Janeiro, Motta solicitou ingressos ao empresário.
A resposta do ex-banqueiro foi imediata, colocando à disposição as entradas necessárias para o evento na Marquês de Sapucaí mediante apenas o envio de dados cadastrais dos convidados.
“Irmão consegue 4 entradas no camarote para as campeãs?” — Hugo Motta para Daniel Vorcaro
“Claro irmão, quantos quiser. Me passa nome completo, CPF, e-mail e telefone de cada um.” — Resposta do ex-banqueiro Daniel Vorcaro
Além dos pedidos de ingressos, o aplicativo de mensagens registrou trocas de informações sobre a imprensa e o setor financeiro. Em uma das ocasiões, Motta repassou a Vorcaro o print de um questionamento enviado por um jornalista a respeito da tentativa de aquisição do Master pelo Banco de Brasília (BRB).

Encontros na capital e elo financeiro familiar
A rotina de contatos entre ambos incluiu reuniões presenciais na capital federal. Em julho do ano passado, Vorcaro esteve na residência oficial de Motta para um café da manhã.
Já no mês seguinte, o presidente da Câmara convidou o banqueiro para um encontro na residência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que também mantinha laços de amizade próximos com o dono do Master.
A proximidade entre os atores políticos e o empresário ocorre em paralelo a negócios financeiros mantidos por familiares. Revelações anteriores apontam que a cunhada do parlamentar tomou um empréstimo de R$ 22 milhões junto ao Banco Master em março de 2024.
O montante foi destinado à aquisição de todas as cotas da empresa ETC Participações para a compra do terreno de uma antiga fábrica de cimentos na Paraíba, projeto voltado para o loteamento de um novo bairro em João Pessoa.
Resposta oficial do parlamentar
Em nota oficial enviada por meio de sua assessoria de imprensa, o presidente da Câmara dos Deputados negou qualquer irregularidade no relacionamento com o empresário e defendeu a lisura de sua trajetória política.
“Enfatizo que não há nenhum ilícito retratado nos diálogos publicados e repudio a tentativa de atribuir conversas descontextualizadas a qualquer relação de interesse espúrio ou de favorecimento por minha parte. Tenho uma vida limpa, assim como é limpa a minha atuação política nesses 15 anos de vida pública.” — Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados
A defesa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, também se manifestou por meio de nota, classificando as menções como “falsas acusações” e argumentando que o conteúdo das mensagens possui teor estritamente pessoal, sem evidência de prática ilícita.





